Há mais de cinquenta anos, os moradores de Sampson County, na Carolina do Norte, acompanham a expansão de um aterro sanitário que hoje ocupa quase 1.300 acres, tornando-se o maior do estado. O local recebe lixo de diversas regiões, e a operação de grande escala tem gerado crescente preocupação entre os residentes.
Para moradores como Sherri White-Williamson, o aterro representa uma ameaça real. Ela cresceu na região e teme que substâncias químicas do local estejam contaminando o lençol freático, afetando o abastecimento de água de famílias que dependem de poços artesianos. “Muitas pessoas ao redor do aterro utilizam água de poço para beber, tomar banho, regar plantas e criar animais”, explica White-Williamson.
Com formação na Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), onde atuou na área de Justiça Ambiental, ela conhecia bem os desafios de mobilização comunitária. Em 2020, fundou a Rede de Ação em Justiça Ambiental (EJCAN), organização sem fins lucrativos que busca capacitar comunidades a defender seus direitos ambientais.
Pouco depois de sua criação, a EJCAN iniciou um trabalho conjunto com moradores de Snow Hill, uma comunidade rural e historicamente negra próxima ao aterro. Os relatos incluíam doenças recorrentes e suspeitas de contaminação da água. “A comunidade percebia um aumento de doenças e acreditava estar diretamente relacionado à proximidade do aterro e à água que consumiam”, afirma White-Williamson. No entanto, faltavam dados científicos para comprovar a relação.
Para preencher essa lacuna, a EJCAN, em parceria com a Universidade da Carolina do Norte (UNC Chapel Hill) e a Universidade Estadual de Appalachian, realizou testes gratuitos em poços da região, com apoio de pequenas doações. Os resultados foram alarmantes: após quatro rodadas de coletas, 13% dos poços analisados apresentaram contaminação por PFAS e outras substâncias tóxicas.
Os PFAS — sigla para substâncias per e polifluoroalquílicas — são compostos sintéticos produzidos desde os anos 1940. Usados em tecidos impermeáveis, panelas antiaderentes e espuma de combate a incêndios, esses “químicos eternos” não se degradam facilmente no meio ambiente ou no corpo humano. A contaminação pode vir tanto de substâncias já proibidas, como o PFOA e PFOS, quanto de versões mais recentes, desenvolvidas como substitutas.
A descoberta reforçou a necessidade de ações urgentes. A EJCAN e os moradores agora pressionam por mais pesquisas e políticas públicas para combater a poluição e garantir água potável segura na região. “Não há análise de impacto na saúde nessa área. Tudo até agora é baseado em relatos”, destaca White-Williamson. “Precisamos de respostas e de mudanças.”