Kimberly Treadaway sabia que enfrentaria desafios com a chegada do furacão Helene à sua cidade, Weaverville, na Carolina do Norte. Além de garantir água e comida para si e para seu filho de cinco meses, ela temia perder o acesso ao Suboxone, medicamento que toma diariamente para controlar os sintomas de abstinência e reduzir os desejos por opioides.

— Se eu não tivesse meu remédio, não estaria bem — afirmou. Treadaway está em recuperação há cerca de dez anos, e a manutenção da sobriedade depende de diversos fatores estáveis: relacionamentos, moradia, emprego e, principalmente, acesso ao tratamento necessário para evitar recaídas. Sua preocupação não era apenas pessoal: seu parceiro e vários amigos também dependiam do Suboxone. Muitos haviam estocado doses ou tinham um plano para reduzir o uso caso perdessem o acesso repentinamente. A abstinência, além de extremamente desconfortável, pode ser perigosa. A ideia de enfrentar os efeitos — febre, calafrios, vômitos e outros sintomas — durante o caos pós-desastre era assustadora.

— O Helene tornou tudo muito real — disse ela.

Treadaway contou sua história na sede da Holler Harm Reduction, organização sem fins lucrativos em Marshall, Carolina do Norte, conhecida simplesmente como “Holler”. O grupo atua diretamente com usuários de drogas, fornecendo agulhas limpas, naloxona e outros insumos para prevenir overdoses e infecções. Ela ingressou na equipe em novembro de 2024, logo após a passagem do furacão.

Com a tempestade, os sistemas de saúde e assistência social ficaram interrompidos por semanas. No entanto, uma rede informal de organizações e voluntários — incluindo médicos, enfermeiros e até moradores — se mobilizou para levar medicamentos, suprimentos e apoio às comunidades afetadas. Eles agiram onde os serviços oficiais não conseguiam, seja por falta de recursos, treinamento ou logística.

— Fizemos o que era necessário e certo — afirmou Treadaway.

Para pessoas em recuperação ou ainda usando drogas, a sobrevivência depende de acesso a cuidados, rotina e sistemas de apoio — farmácias, clínicas, terapias e grupos de apoio. Em regiões como a Appalachia e o Sul dos Estados Unidos, essa rede já é frágil. A crise de opioides, que começou com a superprescrição de analgésicos e se agravou com o uso de heroína, fentanil e outras drogas, deixou um rastro de dependência e mortes nas últimas décadas. Embora as taxas de overdose tenham diminuído desde 2022 graças a iniciativas de prevenção, as áreas rurais ainda enfrentam barreiras estruturais para oferecer tratamento adequado.

Holler Harm Reduction: uma resposta comunitária

A Holler Harm Reduction, onde Treadaway trabalha, é um exemplo de como as organizações locais preenchem lacunas deixadas pelos sistemas formais. Durante o furacão Helene, a equipe e voluntários como Hush Sinn e Oscar Smith se dedicaram a distribuir não apenas insumos básicos, mas também medicamentos essenciais para a manutenção da saúde de seus frequentadores.

— Nossa missão é estar onde as pessoas estão — explicou Sinn. — Em situações de crise, isso significa garantir que ninguém fique desamparado.

O trabalho da Holler e de outras organizações semelhantes revelou um modelo alternativo de resposta a desastres: um que prioriza a confiabilidade e a proximidade com as comunidades mais vulneráveis. Enquanto os sistemas oficiais muitas vezes seguem protocolos rígidos, as redes informais agem com agilidade e adaptabilidade, reconhecendo que a saúde não pode esperar.

O futuro da assistência em tempos de crise

O furacão Helene expôs a fragilidade dos sistemas de saúde em regiões rurais, mas também mostrou o poder da solidariedade. Treadaway e seus colegas não apenas forneceram suprimentos; eles ofereceram esperança em um momento de incerteza.

— Não é só sobre sobreviver à tempestade — disse Smith. — É sobre garantir que as pessoas tenham o que precisam para continuar suas vidas depois.

À medida que os efeitos das mudanças climáticas intensificam eventos extremos, a necessidade de modelos de resposta mais inclusivos e ágeis se torna ainda mais urgente. Para comunidades como a de Treadaway, a diferença entre um desastre e uma catástrofe pode estar na existência de redes de apoio locais, capazes de agir onde os sistemas falham.

Fonte: Grist