Em fevereiro de 2020, enquanto os hospitais lotavam e as cidades esvaziavam durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19, uma capa de revista de 2017 circulava nas redes sociais. A matéria, escrita pelo jornalista Alex Godoy-Faúndez, alertava: ‘Atenção: não estamos preparados para a próxima pandemia’. A publicação, baseada em anos de reportagens sobre doenças emergentes — como SARS, gripe aviária e H1N1 —, parecia prever o que viria a acontecer. No entanto, mesmo com todos os sinais, a magnitude da crise ainda não era compreendida por muitos, incluindo o próprio autor.
Até janeiro e fevereiro de 2020, enquanto casos de Covid-19 se espalhavam pela China e depois pelo mundo, a reação inicial foi de descaso. A crença de que o vírus desapareceria sozinho, como aconteceu com outras doenças, dominava o discurso público. Até mesmo o então presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em 25 de fevereiro de 2020 que o vírus ‘iria embora’. A realidade, no entanto, mostrou-se bem diferente.
Esse padrão de negligência coletiva diante de crises iminentes parece estar se repetindo agora, mas com um novo cenário: a guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz. Especialistas alertam que o impacto econômico desse conflito pode ser ainda maior do que o causado pela pandemia.
O Estreito de Ormuz: um ponto crítico para o petróleo global
O Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, é responsável por cerca de 20% do petróleo global transportado por via marítima. Qualquer interrupção nesse fluxo teria consequências devastadoras para a economia mundial. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o fechamento do estreito representa a maior perturbação na história dos mercados de petróleo, com uma redução de mais de 10 milhões de barris por dia em março.
Para efeito de comparação, o embargo de petróleo de 1973, que desencadeou uma década de crise econômica nos EUA, retirou apenas 7% da oferta global do mercado. Hoje, a situação é ainda mais grave: o fechamento do Estreito de Ormuz já cortou 13% da oferta global, e os danos à infraestrutura da região agravam ainda mais o cenário.
Por que o mercado ainda não precifica esse risco?
Em 19 de fevereiro de 2020, pouco antes de a Itália registrar seus primeiros casos de Covid-19, o índice S&P atingiu uma máxima histórica. Esse comportamento não condiz com a realidade que se seguiu: um fechamento econômico global sem precedentes. Agora, especialistas temem que o mesmo ocorra com a crise no Irã. O mercado parece ignorar os riscos, mesmo com sinais claros de que uma tempestade está se formando.
O problema não é a falta de informações, mas sim a incapacidade de visualizar e aceitar a magnitude da mudança. Assim como em 2020, muitos ainda acreditam que a situação se resolverá sozinha, sem necessidade de preparação ou ação imediata. No entanto, a história mostra que crises globais raramente desaparecem sem deixar marcas profundas.
Lições não aprendidas: o perigo da complacência
A pandemia de Covid-19 deixou um legado de sofrimento e prejuízos, mas também serviu como um alerta para a necessidade de preparação. No entanto, parece que as lições não foram suficientes. A guerra no Irã e suas consequências econômicas podem ser o próximo grande teste para a resiliência global.
Enquanto o mundo ainda debate políticas e estratégias, o tempo passa. E, como em 2020, a pergunta permanece: estamos realmente preparados para o que está por vir?