Intimações administrativas sem ordem judicial

O Immigration and Customs Enforcement (ICE) e o Department of Homeland Security (DHS) estão no centro de uma polêmica após dois processos judiciais recentes acusarem as agências de usar intimações administrativas para identificar críticos anônimos na internet. Essas intimações, conhecidas como "intimações de desanonimização", não exigem aprovação judicial e têm sido usadas para obter dados pessoais de usuários, incluindo nomes, endereços de e-mail e números de telefone.

Uso histórico versus abuso atual

Historicamente, intimações desse tipo eram empregadas em investigações de crimes graves, como tráfico infantil. No entanto, empresas de tecnologia como Google, Reddit, Discord e Meta relataram ao The New York Times terem recebido centenas dessas intimações nos últimos meses. Muitas delas tinham como alvo usuários que criticavam o ICE ou compartilhavam informações sobre suas operações — atividades protegidas pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

Processos judiciais e falta de transparência

Em fevereiro de 2025, a ACLU da Pensilvânia protocolou um pedido de Freedom of Information Act (FOIA) para obter registros sobre as intimações de desanonimização. O pedido foi motivado por investigações que sugerem que o DHS, por meio do ICE, estaria tentando identificar usuários anônimos em redes sociais com base no conteúdo de suas postagens. Até agora, o ICE não respondeu ao pedido.

O processo judicial foi impulsionado por dois casos em Montgomery County, onde residentes tiveram seus dados pessoais solicitados em intimações. Um deles administrava páginas no Instagram e Facebook que monitoravam as ações do ICE, enquanto o outro foi alvo após enviar um e-mail a um promotor federal pedindo "bom senso e decência" em um caso de imigração. Em ambos os casos, o DHS desistiu das intimações após ser contestado na Justiça.

Pressão sobre usuários e empresas

Steve Loney, advogado sênior da ACLU da Pensilvânia, afirmou ao The New York Times que "o governo está tomando mais liberdades do que antes". Segundo ele, a falta de uma ordem judicial para interromper as intimações coloca a pressão sobre os indivíduos para que recorram à Justiça, muitas vezes sozinhos.

Ari Shapell, outro advogado da ACLU, destacou ao The Philadelphia Inquirer que o número real de intimações inconstitucionais é desconhecido. "O fato de só conhecermos alguns casos litigados não significa que não existam muitos outros sob o radar", declarou. A Electronic Frontier Foundation (EFF), outra organização de direitos digitais, também entrou com uma ação contra o ICE e o DHS após as agências ignorarem um pedido semelhante.

Impacto na liberdade de expressão

Grupos de direitos civis argumentam que as intimações de desanonimização representam uma ameaça à liberdade de expressão online. Ao permitir que o governo acesse dados de usuários sem supervisão judicial, há risco de intimidação e censura indireta. A falta de transparência no processo agrava a situação, já que as empresas de tecnologia não são obrigadas a notificar os usuários sobre as intimações recebidas.

"O governo está tomando mais liberdades do que antes. A pressão recai sobre o indivíduo, que muitas vezes precisa ir à Justiça sozinho."

Próximos passos e cobranças por respostas

Os processos judiciais buscam obrigar o ICE e o DHS a fornecerem informações detalhadas sobre as intimações emitidas, incluindo quantas foram enviadas e quais empresas de tecnologia foram obrigadas a cumprir. A expectativa é que as decisões judiciais estabeleçam limites claros para o uso desse tipo de intimação no futuro.

Fonte: Reason