Problemas estruturais ameaçam megaprojeto de IA nos EUA

O Fermi America, maior projeto de data center do mundo, enfrenta uma crise sem precedentes. Apoiado por aliados do ex-presidente Donald Trump e com o nome do ex-mandatário no projeto, a iniciativa está paralisada por atrasos e dificuldades logísticas que podem inviabilizá-la antes mesmo de sua conclusão.

Saída do CEO agrava situação financeira

Na sexta-feira (13), a empresa anunciou a saída abrupta de seu CEO, Toby Neugebauer. A notícia provocou queda de mais de 75% nas ações da Fermi America nos últimos seis meses, com forte desvalorização no aftermarket. A empresa, que havia sido lançada ao público meses após seu anúncio em junho de 2025, agora luta para manter a credibilidade no mercado.

Em entrevista à Axios na quinta-feira, Neugebauer defendeu o projeto, mas admitiu algumas falhas na gestão. Ele não indicou que sua saída estava próxima, mas reconheceu que subestimou a complexidade de projetos desse porte, especialmente no que diz respeito aos sistemas de resfriamento essenciais para os chips de IA.

"Talvez eu tenha sido ingênuo em relação à complexidade de montar esses projetos, principalmente os sistemas de resfriamento. Posso ter entendido mal onde está a cadeia de suprimentos para esse equipamento. Aceito isso como um erro."

— Toby Neugebauer, ex-CEO da Fermi America, em entrevista à Axios

Falta de cliente âncora trava o projeto

Um dos principais obstáculos é a ausência de um cliente âncora — geralmente um grande provedor de nuvem — que é fundamental para viabilizar o projeto, inclusive na aquisição de componentes como sistemas de resfriamento. Essa informação consta em relatório independente da Cleanview, empresa de inteligência de mercado especializada em energia limpa e data centers.

Neugebauer admitiu que o projeto não pode avançar sem um cliente, mas minimizou o problema ao afirmar que a falta de inquilinos "não é um problema" para a empresa. Durante a teleconferência de resultados de 30 de março, analistas questionaram os executivos sobre a ausência de clientes anunciados publicamente. Neugebauer respondeu que a empresa está fechando novos acordos de intenção, mas não pode revelar detalhes até que tudo esteja finalizado.

Em dezembro, um inquilino desistiu do acordo, o que levou investidores a entrarem com uma ação coletiva contra a empresa.

Projeto ambicioso enfrenta desafios sem precedentes

Conhecido como Project Matador, o complexo está sendo construído no Texas Panhandle e deve ser chamado de President Donald Trump Advanced Energy and Intelligence Campus. A área proposta equivale a metade do tamanho de Manhattan e terá uma demanda de energia três vezes maior que a de Nova York, segundo Neugebauer.

O projeto promete gerar 17 gigawatts de energia no local, com fontes como gás natural, nuclear e solar. No entanto, Neugebauer destacou atrasos na confirmação dos sistemas de resfriamento, que geralmente são projetados pelos próprios inquilinos e precisam ser finalizados antes do início das obras.

"Acho que é um gargalo maior do que antecipamos originalmente."

— Toby Neugebauer, ex-CEO da Fermi America

Conquistas e permissões obtidas

A empresa já obteve algumas vitórias importantes, como a concessão de uma licença aérea no início deste ano. No entanto, os recentes problemas colocam em xeque a viabilidade do projeto, que já foi considerado o maior do mundo em sua categoria.

O futuro da Fermi America depende agora da capacidade de atrair um cliente âncora e resolver os problemas logísticos, especialmente os relacionados à infraestrutura de resfriamento e energia. Sem esses elementos, o megaprojeto pode se tornar apenas mais um caso de promessas não cumpridas no setor de tecnologia.

Fonte: Axios