Um membro da tripulação de um tanque M1 Abrams do Exército dos EUA participa de um desafio internacional de tanques em Grafenwoehr, Alemanha, em fevereiro de 2025. (Foto: Sean Gallup/Getty Images)

O erro que não pôde ser evitado

Um dos maiores arrependimentos da minha carreira não foi uma ação que cometi, mas uma que não consegui impedir. Na década de 2010, como comandante do Exército dos EUA na Europa, lutei contra a redução de tropas americanas no continente. Argumentava com congressistas, a administração e até mesmo comandantes militares que a retirada de forças enfraqueceria a posição dos EUA frente a aliados e adversários.

No auge das discussões, implorei para manter pelo menos uma brigada de combate de tanques na Europa. Essas forças não apenas reforçariam a aliança com a OTAN, mas também enviariam uma mensagem clara ao Kremlin: a presença americana não era negociável. Infelizmente, não fui persuasivo o suficiente. A brigada foi retirada, e não demorou para que a Rússia anexasse a Crimeia e invadisse o Donbass ucraniano.

Não afirmo que a decisão tenha causado diretamente a agressão russa, mas certamente contribuiu para criar um ambiente propício a ela. Na época, o então presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, me alertou: ‘Se vocês retirarem essa capacidade da Europa, Moscou agirá.’ Ele estava certo.

Até hoje, questiono como poderia ter sido mais convincente.

Novo corte de tropas reacende temores

Na sexta-feira, ao tomar conhecimento da decisão do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, de reduzir 5 mil soldados na Europa, baseada em uma suposta “análise minuciosa” — mas possivelmente motivada por retaliação política do presidente Donald Trump contra o chanceler alemão Friedrich Merz —, ouço ecos dos mesmos argumentos de mais de uma década atrás. E me preocupo: estamos prestes a cometer um erro ainda maior.

O que diz a ‘análise minuciosa’?

Gostaria de ver os detalhes dessa revisão. Eu participei de um processo semelhante há dez anos, quando ajudei a planejar a transformação das forças americanas na Europa, reduzindo-as de 90 mil para 34 mil soldados entre 2004 e 2012.

A decisão não foi tomada de forma rápida ou superficial. Exigiu anos de análise, coordenação e negociações entre governos, forças armadas e comandos. Foi necessário alinhar movimentações de tropas com as missões no Iraque e no Afeganistão para não desmantelar famílias e unidades. Além disso, envolveu consultas extensas com países anfitriões como Alemanha e Itália, onde fatores políticos, legais e econômicos eram tão importantes quanto os militares.

A logística também foi complexa: fechamento de bases, consolidação de infraestrutura e realocação de recursos. Tudo isso foi feito com um objetivo claro: adaptar as forças americanas a um novo cenário global, mas sem comprometer a segurança da Europa.

O risco de uma decisão equivocada

Hoje, com a proposta de redução de 5 mil soldados, surge a dúvida: essa nova estratégia está levando em conta as lições do passado? A retirada de tropas em 2012 não apenas sinalizou uma aparente falta de comprometimento com a Europa, como também pode ter encorajado ações mais agressivas da Rússia. Se a história se repetir, os EUA e seus aliados podem enfrentar consequências ainda mais graves.

Não se trata apenas de números. Trata-se de mensagem. A presença militar americana na Europa não é apenas uma questão de estratégia, mas de dissuasão. E, como aprendemos da pior forma possível, a ausência de forças pode ser interpretada como um convite ao conflito.