Seis meses antes das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, a distribuição de cadeiras na Câmara dos Representantes já está sendo alterada — não por meio de primárias ou eleições especiais, mas por meio de redistritamento partidário.

Republicanos iniciaram a mais recente rodada de gerrymandering no ano passado, garantindo cinco cadeiras adicionais no Texas, uma em Missouri e outra na Carolina do Norte. Em resposta, democratas reagiram em novembro, conquistando cinco distritos na Califórnia, e na semana passada, mais quatro na Virgínia.

Nesta semana, o Partido Republicano (GOP) retaliou, buscando quatro cadeiras adicionais na Flórida. Além disso, uma decisão da Suprema Corte dos EUA na quarta-feira (15) abriu caminho para que outros estados redefinam seus mapas eleitorais ainda em 2024. Sete estados poderiam, em teoria, redesenhar suas divisões antes das eleições. Mesmo que apenas um ou dois o façam — como anunciou o governador da Louisiana na quarta-feira —, os republicanos serão os principais beneficiados.

O cenário é confuso, mas o que chama ainda mais atenção são as acrobacias retóricas dos políticos ao justificarem suas ações. Sem qualquer constrangimento pela incoerência, eles alternam entre defender seus próprios gerrymanders e condenar os da oposição.

O que é gerrymandering e como ele funciona

O gerrymandering é uma prática antiga em que partidos políticos manipulam os limites dos distritos eleitorais para maximizar suas chances de vitória. Os estrategistas sentam-se com mapas e dados de eleitores para traçar linhas que concentram os eleitores da oposição em poucos distritos, enquanto espalham os seus próprios eleitores para formar maiorias nos demais.

Alguns dos distritos resultantes desse processo ganharam fama por suas formas inusitadas, como o Texas 35, o Nova York 24 e o Illinois 13, verdadeiras obras de arte cartográfica.

Inovação de Trump: redistritamento no meio do mandato

Tradicionalmente, o redistritamento ocorria apenas no início de cada década, após o censo populacional. No entanto, Donald Trump inovou ao incentivar republicanos no Texas e em outros estados vermelhos a mudarem seus mapas ainda durante seu mandato, para garantir mais cadeiras para o GOP.

Democratas em estados azuis responderam com medidas semelhantes. A motivação de Trump era clara: com o controle da legislatura e do governo do Texas, ele poderia agir. Em entrevista à CNBC em agosto de 2023, declarou:

‘Temos a oportunidade no Texas de conquistar cinco cadeiras.’

Para justificar a manobra, Trump criou um argumento moral:

‘Venci o Texas. Tive a maior votação da história do estado. E temos direito a mais cinco cadeiras.’

Esse discurso — ‘Ganhamos o estado, então merecemos as cadeiras’ — tornou-se um padrão para defender o gerrymandering. No entanto, os números não sustentam essa lógica. Em 2024, Trump obteve 56% dos votos no Texas, mas o mapa atual já dava aos republicanos 25 das 38 cadeiras do estado (66%). Com o novo gerrymandering, a expectativa é de que os republicanos passem a controlar 30 das 38 cadeiras (79%). Trump, portanto, alega que 56% dos votos justificam quase 80% das cadeiras.

Quando a Virgínia reagiu na semana passada, recuperando quatro distritos, o ciclo de retaliações continuou. A Suprema Corte, ao flexibilizar regras sobre o uso de raça nos mapas, abriu a porta para que outros estados sigam o mesmo caminho.