O fim de um ciclo: por que o Bitcoin não acompanha mais o M2 global?

Durante anos, o mercado de Bitcoin seguiu uma lógica simples: quando a oferta global de moeda (M2) se expande, o capital migra para ativos de risco, e o Bitcoin, por sua volatilidade e apelo especulativo, captura uma parcela desproporcional desse fluxo. Esse padrão impulsionou o ciclo de alta de 2020-2021, quando a liquidez abundante dos bancos centrais inundou os mercados.

Em 2024, analistas e entusiastas do mercado cripto passaram meses mapeando sobreposições de dados de M2 como sinal de que um novo ciclo de alta estava prestes a começar. No entanto, em 2026, a realidade se mostrou diferente: enquanto o M2 global continuou a crescer, o Bitcoin não conseguiu sustentar valores acima de US$ 76 mil, nível identificado pelo analista-chefe de cripto da Real Vision, Jamie Coutts, como resistência crítica.

O que mudou no mecanismo de transmissão?

Coutts destacou que o tipo de liquidez disponível hoje não garante que a expansão monetária chegue aos ativos financeiros da mesma forma que no passado. Na era do Quantitative Easing pós-2008, o Federal Reserve (Fed) comprava ativos diretamente, injetando reservas bancárias que inevitavelmente fluíam para ações, crédito e, posteriormente, criptoativos.

Hoje, o cenário é outro. A emissão de títulos do Tesouro, a gestão de reservas, as flutuações nos saldos de caixa e a criação de crédito bancário substituíram o 'chafariz' do balanço do banco central. O resultado? Uma liquidez que, embora crescente, não chega ao mercado de forma tão direta ou eficiente.

A armadilha da dívida e da liquidez

Os números recentes revelam um descompasso preocupante. Até o quarto trimestre de 2025, a dívida pública dos EUA ultrapassou US$ 38,5 trilhões, um crescimento de 6,3% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, o M2 cresceu apenas 4,6% no mesmo período. Em termos simples, a dívida está crescendo quase duas vezes mais rápido do que a oferta de moeda.

Esse desequilíbrio é inédito em um ambiente que, teoricamente, deveria ser acomodatício. A relação entre dívida pública e M2 atingiu 1,70x — um patamar sem precedentes modernos. Para piorar, o Tesouro dos EUA planejava emitir US$ 574 bilhões em dívida líquida no primeiro trimestre de 2026 e mais US$ 109 bilhões no segundo, mantendo um saldo de caixa superior a US$ 1 trilhão na conta geral do Tesouro (Treasury General Account, TGA).

Como a conta do Tesouro afeta o Bitcoin?

O TGA, que fica depositado no Fed, funciona como um dreno de reservas do sistema bancário. Em abril de 2026, o saldo da conta atingiu cerca de US$ 1 trilhão, enquanto as reservas bancárias caíram para US$ 2,9 trilhões — uma redução de US$ 355 bilhões em um ano. Isso significa que, embora o M2 aumente no papel, a liquidez real que chega ao mercado financeiro está se contraindo.

Enquanto isso, o crédito bancário continua a se expandir, com empréstimos e arrendamentos comerciais atingindo US$ 13,7 trilhões em meados de abril. No entanto, esse crédito parece estar sendo absorvido pela economia real, e não pelos mercados financeiros, onde o Bitcoin atua.

O que os dados dizem sobre o futuro do Bitcoin?

Na reunião do Federal Open Market Committee (FOMC) de 29 de abril de 2026, a taxa de juros foi mantida entre 3,5% e 3,75%, e o balanço do Fed permaneceu estável em torno de US$ 6,7 trilhões. Os dirigentes citaram a inflação como principal fator de contenção, sem sinal de expansão adicional do balanço.

Para o Bitcoin, isso significa que a relação com a liquidez global pode não se recuperar tão cedo. Analistas como Coutts sugerem que o mercado cripto precisa encontrar novos catalisadores além da expansão monetária tradicional. Enquanto isso, investidores devem ficar atentos ao dólar forte e à gestão da dívida pública, dois fatores que agora ditam as condições de liquidez antes mesmo de chegarem ao Bitcoin.

"O mecanismo de transmissão mudou. Não basta a liquidez existir; ela precisa chegar aos ativos de risco de forma efetiva. Hoje, o sistema está entupido pela dívida e pela absorção de recursos pela economia real."

Conclusão: Bitcoin em um novo paradigma?

O ciclo de alta do Bitcoin baseado na expansão do M2 parece ter chegado ao fim. Com a dívida pública crescendo mais rápido do que a oferta de moeda e o dólar forte restringindo a liquidez, o mercado de criptomoedas enfrenta um desafio inédito. Para os investidores, isso pode significar menos dependência de políticas monetárias expansionistas e mais atenção a fatores estruturais, como a gestão da dívida e a saúde do sistema bancário.

Enquanto o Bitcoin não consegue superar a resistência de US$ 76 mil, resta saber se o mercado cripto será capaz de se desvincular desse antigo paradigma ou se precisará se adaptar a uma nova realidade de liquidez restrita e alta dívida global.