O mito da 'credibilidade' na política externa dos EUA

A obsessão por credibilidade é um mantra recorrente entre os chamados falcões da guerra nos Estados Unidos. Durante sua audiência de confirmação no ano passado, o secretário de Estado Marco Rubio defendeu uma filosofia baseada em "paz pela força", restaurando a "credibilidade da dissuasão americana".

Quando o ex-presidente Donald Trump enviou forças especiais para capturar o líder venezuelano Nicolás Maduro, o vice-presidente J.D. Vance afirmou que "Maduro é a pessoa mais recente a descobrir que o presidente Trump cumpre o que diz". Da mesma forma, o secretário de Defesa Pete Hegseth declarou recentemente que "o Irã está aprendendo, da pior forma, que o presidente Trump cumpre suas promessas".

O paradoxo é evidente: um líder que frequentemente não cumpre suas próprias palavras é aclamado por sua suposta coerência. Entre as intervenções na Venezuela e no Irã, Trump ameaçou a Dinamarca, chegando a afirmar que tomaria a Groenlândia "do jeito fácil ou do jeito difícil". Em 20 de janeiro, ele declarou que "não há volta" nessas ameaças. No entanto, no dia seguinte, concordou com um "quadro de um acordo futuro" para ampliar o acesso militar dos EUA à ilha. O episódio foi rapidamente esquecido, assim como suas repetidas ameaças de impor tarifas globais.

A estratégia do caos e a incoerência política

Há um método por trás dessa aparente loucura. Em seu livro The Art of the Deal (1987), Trump escreveu: "Às vezes, vale a pena ser um pouco agressivo", explicando que cria medo para que a outra parte apresente alternativas favoráveis. Essa tática pode funcionar em alguns casos, mas está longe de construir credibilidade. Na realidade, o objetivo é justamente a desproporção entre palavras e intenções reais.

Um argumento comum em defesa de Trump, cunhado pela jornalista conservadora Salena Zito, é que as pessoas devem levá-lo "a sério, mas não ao pé da letra". Se for assim, por que falar em credibilidade?

A herança problemática: Nixon, Kissinger e a 'teoria do louco'

O problema não é exclusivo de Trump. Décadas atrás, o presidente Richard Nixon e seu assessor de política externa, Henry Kissinger, também priorizavam a manutenção da "credibilidade" americana. No entanto, eles acreditavam na teoria do louco: agir de forma irracional e imprevisível para intimidar adversários.

Essa contradição está no cerne da lógica belicista. Para muitos falcões, credibilidade não significa honestidade ou cumprimento de promessas. Na verdade, é um código para orgulho ou demonstração de força, mesmo que isso custe a credibilidade internacional.

O exemplo de Nixon mostra o que acontece quando a estratégia do louco falha. Embora ambos soubessem que a Guerra do Vietnã não tinha vencedores, Kissinger temia que uma retirada repentina pudesse "criar um problema de credibilidade", pois outros países poderiam interpretar isso como fraqueza. Em vez disso, optou por "prolongar o processo" de derrota. Nixon, por sua vez, oscilava entre diálogos diplomáticos e ameaças de aniquilação nuclear, enquanto intensificava os bombardeios no Vietnã e invadia secretamente o Camboja. Essas ações resultaram em dezenas de milhares de mortes desnecessárias.

O custo da incoerência: confiança perdida no cenário global

As ações recentes dos EUA no Oriente Médio reforçam essa tendência. Trump estabeleceu e prorrogou prazos para o Irã abrir o Estreito de Ormuz, mas sem consequências concretas. A abordagem de criar prazos artificiais e depois recuar mina a confiança de aliados e adversários.

No fim das contas, a obsessão por credibilidade acaba se tornando um tiro no pé. Quando líderes priorizam a imagem de força em detrimento da coerência, a única coisa que resta é o descrédito. E, no mundo da política internacional, a credibilidade perdida é difícil — senão impossível — de recuperar.

"A credibilidade não é apenas sobre parecer forte; é sobre ser confiável. Quando as palavras não correspondem às ações, o mundo para de acreditar."

— Análise de política externa
Fonte: Reason