Proposta de proibição após décadas de uso
A Food and Drug Administration (FDA), sob a gestão do presidente Joe Biden, anunciou em março de 2024 uma regra que proibiria o uso de choques elétricos em crianças com deficiência como forma de punição. A medida, que teria entrado em vigor no ano passado, foi adiada pela administração Trump, que buscava mais tempo para avaliar a decisão. Agora, dois anos depois, a FDA informou que uma decisão será anunciada em breve sobre a implementação da proibição.
Centro de Massachusetts é o único a usar a prática nos EUA
O Centro Educacional Judge Rotenberg (JRC), em Massachusetts, é a única instituição nos Estados Unidos que ainda utiliza dispositivos de choque elétrico para controlar e punir jovens com deficiência, muitos deles autistas ou com doenças mentais, como esquizofrenia. Uma investigação da Mother Jones em 2007 expôs o uso dessa prática no local.
A nova regra da FDA, se aprovada, não proibiria todos os tipos de terapia por choque. Dispositivos elétricos ainda poderiam ser usados voluntariamente para tratamentos como cessação do tabagismo, além de não afetar aparelhos de eletroconvulsoterapia empregados no tratamento de transtornos como depressão maior e transtorno bipolar. No entanto, os dispositivos usados pelo JRC seriam banidos do mercado.
Danos físicos e psicológicos comprovados
Segundo especialistas, os choques elétricos causam lesões, traumas e danos duradouros. Zoe Goss, diretora de defesa da Autistic Self Advocacy Network, afirmou:
"Sabemos, pelos depoimentos de sobreviventes e especialistas, que essa tortura causa ferimentos, traumas e danos permanentes. Pessoas autistas estão sendo eletrocutadas por coisas como não tirar o casaco."
Histórico de tentativas de proibição
A FDA já havia proibido o uso involuntário de choques para comportamentos autolesivos ou agressivos em 2020, mas a decisão foi derrubada em 2021 por um painel de apelações federais, que questionou a autoridade da agência para impor a medida. Em 2022, a Câmara dos Representantes aprovou um projeto de lei para banir o uso de choques em pessoas com deficiências intelectuais e de desenvolvimento, mas o texto não avançou no Senado. Em setembro de 2023, um tribunal de Massachusetts permitiu que o JRC continuasse usando os choques em crianças sob seus cuidados.
Falta de evidências e riscos à saúde
Defensores da terapia por choque alegam que ela acalma pessoas com deficiências intelectuais e de desenvolvimento que apresentam comportamentos problemáticos. No entanto, a FDA não encontrou nenhuma evidência que apoie essa afirmação. Além disso, o método pode causar efeitos colaterais graves, como:
- Riscos psicológicos: depressão, ansiedade, piora de sintomas subjacentes e desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático;
- Riscos físicos: dor, queimaduras e danos aos tecidos.
Owen Faris, ex-diretor interino da FDA’s Office of Product Evaluation and Quality, declarou em março de 2024:
"Esses dispositivos apresentam inúmeros riscos psicológicos e físicos."
Comunidade apoia a proibição
Durante o processo de regulamentação, quase 800 pessoas e organizações enviaram comentários, a maioria favorável à proibição. River Bradley, uma pessoa autista que enviou um depoimento, escreveu:
"Pessoas autistas precisam de ajuda, não de punição. Elas estão sendo punidas por coisas como não tirar o casaco ou gritar de dor após serem eletrocutadas."
Um dos pais de uma pessoa autista também se manifestou, reforçando a necessidade de proteger crianças vulneráveis de práticas cruéis.