A Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) pode ter um papel na segurança da Copa do Mundo 2026, que será sediada em três países, incluindo os Estados Unidos. A possibilidade, no entanto, gera debates sobre como e quando a agência poderia atuar durante o evento.

Em fevereiro, o então diretor da ICE, Todd Lyons, afirmou em audiência no Congresso que a agência seria uma "parte fundamental" da segurança do torneio. Lyons, que anunciou sua renúncia para o final de maio, reforçou a expectativa de envolvimento da ICE no planejamento logístico e de fiscalização.

Por outro lado, especialistas e fontes políticas ouvidas pela imprensa destacam que a atuação da ICE em eventos de grande porte nos últimos anos tem sido marcada por cautela. Durante o governo Trump, operações de alto perfil da agência, como blitze e detenções em massa, geraram forte reação política. Casos como a morte de dois cidadãos americanos em ações da polícia de fronteira e a pressão pública levaram à saída de altos funcionários, incluindo a ex-secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, e forçaram uma mudança para estratégias menos visíveis.

Um exemplo recente é o Super Bowl, realizado em fevereiro de 2024 nos EUA. Mesmo com a presença de figuras como o cantor Bad Bunny, conhecido por críticas à política migratória americana, a ICE não realizou operações de grande escala na região.

O que esperar da ICE na Copa do Mundo?

Fontes ligadas à política migratória e ao Texas, estado que sediará partidas do torneio, sugerem que o cenário mais provável não seja a instalação de postos de controle nas estradas para a Copa, mas sim ações mais discretas. Entre as possibilidades estão:

  • Fiscalizações em aeroportos e pontos de entrada: Verificações de documentos em viajantes internacionais, especialmente aqueles com histórico de irregularidades migratórias.
  • Presença em áreas turísticas: Monitoramento em locais com grande concentração de torcedores, como estádios e zonas de fan fest.
  • Ações coordenadas com outras agências: Colaboração com a CBP (Patrulha de Fronteira) e o DHS (Departamento de Segurança Interna) para evitar operações isoladas que possam gerar polêmica.

Especialistas também apontam que, mesmo com a expectativa de um evento global como a Copa do Mundo, a administração Biden tem priorizado abordagens menos agressivas em relação à imigração, em comparação com o governo anterior. No entanto, a pressão política e a necessidade de garantir a segurança do evento podem levar a medidas pontuais.

"A ICE não vai desaparecer. Ela pode atuar de forma estratégica, focando em alvos específicos, como pessoas com mandados de prisão ou histórico criminal, sem necessariamente promover operações de grande escala que atraiam atenção negativa."

— Analista de política migratória, que preferiu não ser identificado

Outro fator a ser considerado é o contexto internacional. A Copa do Mundo 2026 será a primeira sediada em três países — EUA, Canadá e México — e envolve um esforço conjunto de segurança. Autoridades dos três países já sinalizaram que o foco será na cooperação, o que pode limitar ações unilaterais da ICE.

Por enquanto, não há confirmação oficial sobre a presença da agência durante o torneio. No entanto, a possibilidade de fiscalizações em aeroportos e pontos de fronteira já é tratada como um risco real por organizações de defesa dos direitos dos imigrantes.

Reações e preparativos

Grupos de ativistas e advogados de imigração já começaram a se mobilizar para orientar torcedores estrangeiros sobre seus direitos. Em comunicado, a ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) alertou que a ICE pode usar o evento como justificativa para aumentar fiscalizações, especialmente em estados com leis migratórias mais restritivas, como o Texas.

"Torcedores devem estar cientes de seus direitos. Nenhum agente da ICE ou da CBP pode revistar seus dispositivos eletrônicos sem consentimento ou mandado judicial", afirmou um porta-voz da organização.

Enquanto a data do torneio se aproxima, a dúvida sobre o papel da ICE permanece. Seja por meio de ações discretas ou operações de maior visibilidade, a agência pode ter um impacto significativo na experiência de torcedores internacionais nos EUA.