A busca por minerais críticos, como o lítio, tem colocado em risco os direitos indígenas no estado de Nevada, nos Estados Unidos. Segundo um relatório divulgado pela Anistia Internacional nesta terça-feira (12), o governo norte-americano e empresas privadas vêm ignorando sistematicamente as comunidades originárias na exploração desses recursos.

A organização exige a suspensão imediata de todas as permissões federais para minas de lítio no estado, que abriga cerca de 85% das reservas conhecidas do mineral nos EUA — essencial para a produção de baterias de veículos elétricos e outros dispositivos.

O documento destaca três projetos específicos: Thacker Pass Lithium Mine, Nevada North Lithium Project e Rhyolite Ridge Lithium-Boron Project. Todos estão localizados em terras públicas consideradas território não cedido pelos povos Western Shoshone e Paiute, que há décadas lutam contra a extração e seus impactos ambientais, como contaminação de água e perda de biodiversidade.

“Esta é nossa terra. Nós deveríamos ter voz nas decisões, mas eles não querem nossa presença porque Nevada é tão rica em minerais.”
— Fermina Stevens, membro da Te-Moak Tribe of Western Shoshone e diretora-executiva do Western Shoshone Defense Project

Os três empreendimentos estão em diferentes fases: o Thacker Pass já está em construção, o Rhyolite Ridge deve iniciar as obras ainda este ano, e o Nevada North permanece em fase exploratória. Segundo a Anistia Internacional, todos violam o princípio do Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI), um padrão internacional que garante às comunidades indígenas o direito de aprovar ou rejeitar projetos que afetem seus territórios.

Embora os projetos tenham sido aprovados por agências federais, a Anistia argumenta que os processos de revisão não cumpriram integralmente o CLPI nem a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (UNDRIP).

Mark Dummett, chefe de Direitos Humanos e Negócios da organização, afirmou:

“As empresas precisam tomar o lado certo: o lado dos direitos humanos, não da extração a qualquer custo.”

Ele ressaltou que, independentemente das leis locais, as companhias devem seguir padrões internacionais de direitos humanos. O relatório também aponta o impacto das políticas de desregulamentação da administração Trump, que acelerou permissões e reduziu revisões ambientais, limitando a capacidade das comunidades indígenas de exercerem seu consentimento.

Em resposta, um porta-voz do Departamento do Interior dos EUA declarou:

“Os ativistas climáticos por trás desse relatório são conhecidos por fazer alegações infundadas, repetidamente rejeitadas pelos tribunais, como parte de sua raiva patética contra a produção de energia — que não só é bipartidária, como comprovadamente benéfica ao povo americano.”

O órgão também afirmou que a revisão dos projetos de lítio em Nevada pela Bureau of Land Management incluiu ampla análise ambiental e oportunidades de engajamento tribal.

Nevada vive um boom do lítio, com mais de 20 mil reivindicações minerárias registradas. O relatório da Anistia surge em meio a uma crescente resistência global dos povos indígenas à chamada “transição verde”, que, segundo críticos, muitas vezes prioriza interesses econômicos em detrimento de direitos humanos e ambientais.

Fonte: Grist