OMAHA, Nebraska — Enquanto a cidade se preparava para receber milhares de investidores durante o tradicional encontro anual da Berkshire Hathaway, liderado por Warren Buffett, uma batalha silenciosa mas urgente se desenrolava nos bastidores do sistema de saúde local.

A protagonista dessa história é Amy Behnke, CEO da Nebraska Health Center Association, que representa clínicas que atendem populações carentes no estado. Nos últimos dias, ela tem trabalhado freneticamente em ligações com autoridades estaduais para evitar que milhares de residentes de baixa renda percam o acesso ao Medicaid.

Desde 2020, Behnke observa uma melhora significativa: a proporção de pacientes sem qualquer tipo de seguro nas clínicas associadas caiu de metade para um terço. Esse avanço foi possível graças à expansão do Medicaid no estado, aprovada por meio de plebiscito em 2020, após anos de recusa por parte dos republicanos.

A medida permitiu que mais de 70 mil nebraskanos — cidadãos ou residentes legais com renda abaixo de 138% do limite federal de pobreza — passassem a ter cobertura médica. No entanto, a partir de 1º de maio, esses beneficiários passaram a enfrentar novas exigências de trabalho, inseridas na legislação de cortes no Medicaid proposta pelo ex-presidente Donald Trump.

A lei federal, conhecida como "One Big Beautiful Bill", determina que os estados implementem regras de trabalho para beneficiários do Medicaid até janeiro de 2027. Nebraska, governado pelo republicano Jim Pillen, decidiu antecipar a medida, alegando que ela transformará o programa em um "apoio temporário, não um benefício permanente".

Quem será afetado?

Segundo dados da KFF, a maioria dos adultos não idosos no Medicaid de Nebraska já trabalha ou estuda. Na teoria, eles não teriam dificuldades para manter o benefício. No entanto, a realidade pode ser bem diferente.

Muitos dos que não trabalham são pessoas com deficiência, responsáveis por cuidados de familiares ou em outras situações que, em tese, os isentariam das exigências. Mas a burocracia e a falta de clareza nas regras podem criar barreiras inesperadas, levando ao cancelamento indevido de benefícios.

"O que está escrito na lei e o que vai acontecer na prática são duas coisas muito distintas", afirmou Behnke. A incerteza afeta não apenas os beneficiários, mas também as clínicas que dependem desses recursos para atender à população mais vulnerável.

Enquanto o governo estadual defende as mudanças como uma forma de incentivar a autossuficiência, críticos alertam para o risco de aumento da desigualdade no acesso à saúde, especialmente em um estado onde a pobreza ainda atinge uma parcela significativa da população.