Stablecoins podem desestabilizar economias emergentes, diz diretor do BIS
O rápido crescimento das stablecoins atreladas ao dólar, como USDT e USDC, representa uma ameaça à soberania monetária dos bancos centrais, especialmente em mercados emergentes. Essa foi a advertência feita por Pablo Hernández de Cos, diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS), durante discurso no Banco do Japão na segunda-feira (13).
Cos, ex-presidente do Banco da Espanha, destacou que países em desenvolvimento são os mais vulneráveis ao fenômeno da dolarização digital. Segundo ele, quando cidadãos desses países adotam stablecoins em larga escala, os bancos centrais locais perdem capacidade de gerir políticas monetárias eficazes.
"As stablecoins atreladas a moedas estrangeiras podem comprometer ainda mais a transmissão monetária e a soberania dos bancos centrais, se transações, preços e salários começarem a ser definidos em moedas estrangeiras."
Por que stablecoins são atraentes em países com inflação alta?
A adoção de stablecoins segue o mesmo padrão histórico da popularização do dólar em nações com inflação descontrolada. Em economias com inflação de dois dígitos, como a Nigéria, a estabilidade do dólar — e de seus equivalentes digitais — atrai investidores e cidadãos em busca de proteção contra a desvalorização da moeda local.
No entanto, Cos alerta que essa prática enfraquece o controle dos bancos centrais sobre a política monetária. "O banco central da Nigéria não tem influência sobre as decisões do Federal Reserve", exemplificou.
Crescimento explosivo e regulação em discussão
Nos últimos dois anos, o valor total de mercado das stablecoins cresceu mais de 100%, superando US$ 320 bilhões, segundo dados da DefiLlama. Desse total, 99,6% estão atrelados ao dólar.
Nos EUA, a aprovação do Genius Act em julho de 2025, primeira legislação a regulamentar a emissão de stablecoins, impulsionou o setor. No entanto, o crescimento recente foi afetado pela queda do Bitcoin, que caiu de US$ 126 mil para US$ 62 mil no mesmo período.
De janeiro a outubro de 2025, as stablecoins atraíram mais de US$ 100 bilhões. Em 2026, no entanto, o setor registrou menos de US$ 12 bilhões em novos aportes.
Três riscos principais das stablecoins para os bancos centrais
Cos destacou três principais desafios impostos pelas stablecoins:
- Acesso global ao dólar digital: Qualquer pessoa com internet pode usar stablecoins atreladas ao dólar, mesmo em países com restrições cambiais.
- Pressão sobre moedas locais: A venda de moedas nacionais por stablecoins pode criar um prêmio para o dólar digital, acelerando a desvalorização da moeda local.
- Evasão de controles de capital: Stablecoins facilitam a circulação de capitais sem fiscalização, aumentando a volatilidade dos fluxos financeiros.
O diretor do BIS também enfatizou a necessidade de cooperação internacional para evitar fragmentação regulatória e arbitragem prejudicial entre jurisdições.
"O dinheiro é muito mais do que uma tecnologia. É uma conquista institucional que prospera com a confiança na cooperação doméstica e internacional."
Perspectivas para o futuro do sistema financeiro
Apesar dos riscos, Cos reconhece que as stablecoins não desaparecerão. "Elas exigem atenção dos formuladores de políticas e reguladores", afirmou. O executivo, cotado para assumir a presidência do Banco Central Europeu em 2027, defende que a regulação deve equilibrar inovação e estabilidade financeira.
Para especialistas, o debate sobre stablecoins reflete uma tensão maior: como os bancos centrais podem manter o controle sobre a política monetária em um mundo cada vez mais digitalizado e globalizado.