O ciclo de mudanças nas teses de investimento dos VCs

Manter um documento secreto no Google Drive intitulado “Teses de Fundos que Me Irritam” pode parecer incomum, mas revela um padrão preocupante no universo dos investidores de capital de risco (VCs). Sempre que um fundo apresenta uma tese genérica, vazia ou repleta de jargões, mas mesmo assim consegue captar recursos, o texto é adicionado à lista. Nos últimos anos, um fenômeno chamou atenção: VCs não apenas ajustam suas teses individualmente, mas setores inteiros do mercado seguem a mesma tendência.

O declínio do investimento em clima e o surgimento de novas prioridades

Há pouco tempo, o investimento em clima era considerado um dos segmentos mais promissores do mercado. Hoje, muitos fundos especializados nesse setor desapareceram ou reduziram suas atividades. Um exemplo emblemático é um VC que, antes, recebia propostas de startups focadas em soluções climáticas. Agora, o mesmo fundo investe em “IA para clima” — uma abordagem que, na prática, pode ser contraditória, mas reflete a necessidade de se adaptar às mudanças políticas e de mercado nos EUA.

Termos como “dinamismo americano”, “resiliência”, “cadeia de suprimentos” e “defesa” passaram a dominar o discurso, substituindo palavras anteriormente associadas ao clima. Essa transição não é coincidência: reflete a polarização política em torno do tema nos Estados Unidos.

O impacto da política e das tendências tecnológicas

A influência da política não se limita ao setor de clima. Termos como “diversidade”, que já foram centrais em muitas teses de fundos, agora são evitados devido ao atual clima político. Fundos que antes se orgulhavam de investir em empresas lideradas por minorias agora precisam reformular suas estratégias para evitar serem rotulados ou, pior, perderem relevância.

As tendências tecnológicas também desempenham um papel crucial nessa volatilidade. Há poucos anos, fundos generalistas de seed capital se transformaram em “fundos de IA”. Recentemente, o chamado “SaaSpocalypse” — a crença de que a IA irá dizimar empresas de SaaS, que foram a base dos investimentos de VC por décadas — redefiniu estratégias e linguagem em grande parte do setor.

Cinco anos atrás, quase todos os investidores eram especializados em SaaS ou empresas enterprise. Hoje, o silêncio é total. Um gestor de fundo, antes conhecido por seu foco em SaaS, recentemente declarou que agora só investe em consumidor. Não é apenas o SaaS que sofre: o investimento em software geral também enfrenta dificuldades.

A revolução da IA e a busca por novos diferenciais

O crescimento espetacular dos LLMs (Large Language Models) reduziu barreiras de entrada em diversos setores de software. Agora que é fácil desenvolver e lançar produtos, o software em si não é mais visto como uma vantagem competitiva sustentável. Por isso, investidores estão migrando para setores onde a replicação é mais difícil, como hardware e bens de consumo embalados — ambos considerados impopulares há menos de um ano.

Os desafios para fundadores

Para os fundadores, a consequência é um efeito chicote. Empresas que antes eram vistas como promissoras agora precisam se reinventar para atrair investimentos. A volatilidade nas teses dos VCs exige agilidade e capacidade de adaptação, mas também gera incerteza sobre quais setores serão valorizados amanhã.

"A mudança constante nas prioridades dos investidores não é apenas uma questão de estratégia, mas de sobrevivência. Fundadores precisam entender que o que funciona hoje pode não funcionar amanhã."

O que esperar do futuro?

Em um mercado onde as teses de investimento mudam tão rapidamente, a única constante parece ser a incerteza. Para os VCs, a lição é clara: adaptar-se ou desaparecer. Para os fundadores, a mensagem é ainda mais direta: inovação e flexibilidade são essenciais.