O Oceano Pacífico, com seu poderoso sistema de correntes e ventos, está prestes a liberar uma quantidade excepcional de calor acumulado. Cientistas monitoram o desenvolvimento de um super El Niño, fenômeno que pode redefinir os padrões climáticos globais nos próximos 12 a 18 meses.

Em um mundo já aquecido pelos gases de efeito estufa, a combinação de um El Niño intenso com as mudanças climáticas pode empurrar a temperatura média anual do planeta além do limite de 1,5°C — um patamar crítico para impactos irreversíveis no clima. Segundo projeções, mesmo um El Niño moderado poderia elevar a média global para cerca de 1,7°C acima dos níveis pré-industriais, conforme alertou o climatologista James Hansen.

O que é um super El Niño?

O El Niño é a fase quente do ciclo natural El Niño-Oscilação Sul (ENOS), que altera a distribuição de calor e umidade no planeta. Durante eventos intensos, como o previsto para 2025, grandes quantidades de calor armazenadas no Pacífico Tropical Ocidental — região entre Austrália e Indonésia — são transportadas para o leste, em direção à América do Sul.

Essa movimentação de água quente, que pode cobrir uma área quatro vezes maior que os Estados Unidos, transfere energia para a atmosfera em pulsos. Os efeitos incluem:

  • Intensificação de chuvas e enchentes em regiões como o sul da América do Sul e o sul dos EUA;
  • Aumento de secas e ondas de calor no Sudeste Asiático, Austrália e partes da África;
  • Branqueamento de recifes de coral em todo o mundo, devido ao estresse térmico;
  • Alterações em ecossistemas marinhos, afetando pescarias e a biodiversidade oceânica;
  • Mudanças nos padrões de vento em grandes altitudes, influenciando o clima global.

Risco de mudanças climáticas abruptas

Um estudo recente publicado por cientistas climáticos revelou que eventos fortes de El Niño podem desencadear mudanças de regime climático — alterações bruscas e duradouras nos padrões de chuva, seca e temperatura. Essas transformações podem durar décadas e afetar ecossistemas e sociedades de forma permanente.

Em 2015, o calor liberado pelo Pacífico ajudou a empurrar a temperatura global média para além de 1°C acima dos níveis pré-industriais. Já em 2024, o planeta registrou o ano mais quente da história, com contribuição do El Niño. Agora, os especialistas temem que, após o fenômeno, o resfriamento não seja suficiente para retornar aos níveis anteriores.

“Passar de 1,5°C não é como cair de um penhasco, mas é o momento em que a beira começa a desmoronar.” — James Hansen, climatologista.

Impactos já visíveis

Mesmo abaixo de 1,5°C, os efeitos do El Niño são perceptíveis. Na Califórnia, por exemplo, reservatórios alternam entre secas severas e enchentes extremas. Recifes de coral, desde a Austrália até o Caribe, sofrem com o branqueamento em massa. Esses sinais indicam que o sistema climático está se tornando cada vez mais instável.

Para as comunidades indígenas da Amazônia, como os povos Yagua na Colômbia, os impactos são imediatos. Em outubro de 2024, o baixo nível do Rio Amazonas dificultou o transporte de água e mantimentos, agravando a crise hídrica na região.

O que esperar nos próximos anos?

Os cientistas alertam que, mesmo que o super El Niño não se concretize, os efeitos das mudanças climáticas já estão em curso. A frequência e intensidade de eventos extremos devem aumentar, exigindo adaptação urgente por parte dos governos e sociedades.

O Acordo de Paris estabeleceu 1,5°C como um limite seguro para evitar os piores impactos do aquecimento global. No entanto, a combinação de El Niño com o aquecimento global pode tornar esse objetivo cada vez mais difícil de ser alcançado.

Fonte: Vox