A agricultura brasileira, uma das maiores do mundo, enfrenta graves ameaças devido à crise climática. Em 2024, o país registrou ondas de calor intenso que duraram cinco dias consecutivos em abril, agravando uma sequência de eventos extremos que já assolam o setor há anos. Regiões como São Paulo, tradicional produtor de soja e milho, registraram quedas significativas nas safras, enquanto culturas como amendoim, batata, cana-de-açúcar e café arábica também sofreram perdas generalizadas.
Os prejuízos não se limitaram às lavouras. No centro-oeste brasileiro, rebanhos suínos foram afetados por estresse térmico prolongado, e enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul, causadas por bloqueios atmosféricos associados ao calor extremo, interromperam cadeias de suprimento, incluindo a produção de camarão rosa. Esses dados fazem parte de um relatório recente da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que analisa os impactos das mudanças climáticas na produção global de alimentos.
Brasil no centro da crise: exportações em risco
O relatório da ONU destaca o Brasil como estudo de caso detalhado, devido à sua importância no comércio agrícola global. O país, que depende fortemente de commodities como soja e milho, enfrenta pressões crescentes com o aumento das temperaturas e a alternância entre os fenômenos El Niño e La Niña. Esses ciclos naturais, agora intensificados pelas mudanças climáticas, agravam secas e inundações, colocando em risco a estabilidade das safras e os preços dos alimentos.
Os impactos não são exclusivos do Brasil. Em 2016, o Chile enfrentou um dos piores eventos de mortalidade na aquicultura, quando o aquecimento das águas do mar provocou florações de algas tóxicas que mataram cerca de 100 mil toneladas de salmão e truta cultivados. Nos Estados Unidos, a onda de calor recorde de 2021 no noroeste do Pacífico resultou na perda total de colheitas de framboesa e amora, além de reduzir em 70% o volume de madeira em fazendas de árvores de Natal e aumentar em 21% a 24% a área florestal queimada na América do Norte naquele ano.
Outros países sofrem com perdas recordes
Na Índia, uma onda de calor extrema em 2022 reduziu a produção de trigo em até 34% em um terço dos estados, enquanto o estresse térmico em rebanhos leiteiros diminuiu a produção de leite em até 15%. Culturas como repolho e couve-flor também tiveram suas safras reduzidas pela metade. Já no Quirguistão, na cordilheira de Fergana — conhecida por suas neves perenes —, as temperaturas da primavera subiram 50% acima da média histórica, ameaçando a segurança alimentar local.
O documento da ONU, com 94 páginas, alerta que eventos climáticos extremos estão se tornando a nova normalidade. A combinação de secas prolongadas, chuvas intensas e temperaturas recordes está redefinindo a produção agrícola mundial, exigindo adaptações urgentes para garantir a segurança alimentar global.
O que pode ser feito?
Segundo os autores do relatório, a solução passa por uma combinação de inovações tecnológicas, políticas públicas e práticas agrícolas sustentáveis. Entre as recomendações estão:
- Adaptação das culturas: Desenvolvimento de variedades resistentes ao calor e à seca, como soja e milho tolerantes ao estresse térmico.
- Gestão hídrica: Implementação de sistemas de irrigação eficientes e armazenamento de água para enfrentar períodos de seca prolongada.
- Monitoramento climático: Uso de dados meteorológicos em tempo real para prever e mitigar impactos de eventos extremos.
- Políticas de apoio: Incentivos governamentais para agricultores adotarem práticas sustentáveis e reduzirem emissões de carbono.
- Diversificação de culturas: Redução da dependência de commodities vulneráveis, como café e cana-de-açúcar, em regiões altamente afetadas.
Os especialistas destacam que, sem ações concretas, a crise climática continuará a pressionar os sistemas alimentares, elevando os preços e reduzindo a disponibilidade de alimentos essenciais. A adaptação não é mais uma opção, mas uma necessidade urgente para garantir a segurança alimentar no futuro.