Nos últimos meses, políticos republicanos nos Estados Unidos apresentaram projetos de lei para proteger as grandes empresas de petróleo de responsabilidades legais relacionadas à crise climática. Essa iniciativa é mais uma tentativa da indústria fóssil de evitar consequências por décadas de desinformação que atrasaram a transição energética global.

Enquanto isso, milhões de americanos já enfrentam ondas de calor extremo, incêndios, inundações e secas — desastres que as próprias petrolíferas previam há décadas. Documentos internos revelam que executivos da indústria sabiam dos riscos “globalmente catastróficos” do aquecimento global, incluindo “ameaças à sobrevivência humana”, “mais tempestades, secas e enchentes”, e até “mortes por extremos térmicos”.

Em seu novo romance, Vigil, o autor George Saunders aborda essas questões por meio da história de K.J. Boone, um executivo do setor de petróleo em seus últimos dias de vida. Ele é visitado por Jill, um espírito cuja missão é confortar pessoas em transição para o além. Embora a premissa seja sobrenatural, a pergunta central do livro é urgente: como equilibrar justiça e misericórdia em casos de crimes profundos, como a desinformação climática da indústria fóssil?

É uma questão diferente das que Saunders abordou em sua carreira, focada em responsabilizar empresas por seus danos ambientais. Em entrevista ao Boston Review, editada para clareza, o autor discutiu essa tensão, o papel da empatia na mobilização social, o impacto da arte na mudança política e o que significa encontrar conforto em um planeta já condenado a severas mudanças climáticas.

O poder da arte para despertar consciências

Ao ser questionado sobre o impacto que Vigil poderia ter nos leitores, Saunders respondeu:

“Quando comecei a escrever, pensei: ‘Bem, tenho 67 anos, qual é a coisa mais urgente no universo?’. A resposta era óbvia: a mudança climática. Mas percebi que, embora o tema esteja no livro, não é sobre isso. O objetivo era acordar um pouco o leitor — torná-lo mais consciente do mundo ao redor e, quem sabe, mais afetuoso com ele.”

O autor admite que o livro se tornou controverso: “Agora que terminei, vejo que é um livro que agita muita gente. Alguns amaram, outros odiaram. E isso, para mim, é um feito interessante. Até agora, sempre busquei agradar. Conseguir algo novo, mesmo que irritante, é uma conquista.”

A tensão entre justiça e compaixão

Durante a conversa, Aaron Regunberg, entrevistador, confessou que, embora tenha gostado de muitos aspectos do livro, ficou incomodado com o final. Saunders respondeu:

“Muitas pessoas acharam o final lindo, outras o odiaram. Conte-me o que te incomodou.”

Regunberg explicou: “Vivemos em um mundo corroído pela impunidade das elites. Ver K.J. Boone, um executivo que lucrou com a destruição ambiental, recebendo algum tipo de redenção no fim, mexeu comigo.”

Saunders refletiu sobre a complexidade da narrativa:

“A pergunta é: até que ponto devemos perdoar? Especialmente quando o dano é tão grande. Não acho que haja uma resposta fácil. Talvez o livro não ofereça soluções, mas faz o leitor refletir sobre essas questões.”

Para o autor, a arte tem um papel fundamental em provocar essas discussões. “A literatura não precisa resolver problemas, mas pode nos fazer questionar nossas próprias convicções e, quem sabe, mudar nossa forma de agir.”

Empatia e mobilização social

Saunders também falou sobre a importância da empatia na organização de movimentos sociais. “Muitas vezes, a raiva é o que move as pessoas, mas a empatia pode ser ainda mais poderosa. Ela nos permite entender o outro, mesmo quando discordamos.”

Ele citou exemplos de ativistas que conseguiram engajar comunidades ao combinar indignação com compreensão das realidades alheias. “A arte pode ser uma ferramenta para cultivar essa empatia. Um livro, um filme ou uma música podem tocar as pessoas de uma forma que dados e estatísticas não conseguem.”

O que resta quando o planeta já está condenado?

Diante do cenário de catástrofes climáticas inevitáveis, Saunders questiona: “Como encontrar conforto em um mundo que já está em colapso? Talvez a resposta esteja em como vivemos nossas vidas, em como tratamos uns aos outros e ao meio ambiente.”

Para ele, Vigil não oferece respostas fáceis, mas convida o leitor a uma reflexão profunda sobre responsabilidade, redenção e o futuro do planeta.