A Suprema Corte dos Estados Unidos volta a se envolver em uma batalha judicial sobre o acesso ao aborto, desta vez com foco no medicamento mifepristona, amplamente utilizado em procedimentos de interrupção de gravidez nos EUA.

Na última sexta-feira, a Corte de Apelações dos EUA para o 5º Circuito, de tendência conservadora, tentou mais uma vez restringir o acesso ao fármaco. Essa não é a primeira vez: em 2023, o mesmo tribunal já havia tentado bloquear a distribuição do medicamento, mas a Suprema Corte, por unanimidade, rejeitou a decisão por falta de jurisdição federal sobre o caso.

Desta vez, duas fabricantes do medicamento, Danco Laboratories e GenBioPro, recorreram novamente à Suprema Corte, alegando que os argumentos jurídicos são praticamente idênticos aos apresentados no caso FDA v. Alliance for Hippocratic Medicine (2024), no qual a Corte também manteve o acesso ao medicamento.

Espera por decisão até maio

O juiz Samuel Alito, que costuma analisar primeiro os pedidos emergenciais provenientes do 5º Circuito, emitiu uma ordem temporária bloqueando a decisão da corte inferior até 11 de maio de 2025. A medida é vista como um sinal positivo para provedores de aborto e pacientes.

No entanto, defensores dos direitos reprodutivos permanecem cautelosos. Embora a Suprema Corte tenha barrado tentativas anteriores de banir a mifepristona, o caso Alliance for Hippocratic Medicine foi a única vitória significativa obtida desde que os republicanos conquistaram a maioria qualificada na Corte.

Precedentes ignorados: Corte adota postura inconsistente

A maioria conservadora da Suprema Corte tem proferido decisões antiaborto que muitas vezes contradizem precedentes recentes. Em Medina v. Planned Parenthood (2025), por exemplo, os juízes republicanos revogaram uma decisão de apenas dois anos atrás para cortar o financiamento do Medicaid a provedores de aborto. Já em Whole Woman’s Health v. Jackson (2021), cinco dos nove juízes permitiram que estados eliminassem direitos constitucionais por meio de sistemas de denúncias e recompensas a terceiros.

Os argumentos das fabricantes em Danco Laboratories v. Louisiana são considerados juridicamente sólidos, mas ainda não há garantia de que a Corte seguirá seu próprio precedente em Alliance.

Impacto da decisão do 5º Circuito

Antes de analisar os detalhes jurídicos, é fundamental entender por que a decisão do 5º Circuito no caso Danco representa uma ameaça ao acesso à mifepristona em todos os estados, mesmo que o tribunal alegue o contrário.

"A mifepristona é um medicamento seguro e eficaz, aprovado pela FDA há mais de duas décadas. Restringir seu acesso não apenas prejudica pacientes, mas também ignora décadas de regulamentação federal."

Os defensores do direito ao aborto aguardam ansiosamente a decisão da Suprema Corte, que deve ser conhecida até maio. Enquanto isso, a batalha judicial continua a expor as divisões profundas nos EUA sobre o tema.

Fonte: Vox