A China bloqueou, nesta segunda-feira (20), a aquisição da startup de inteligência artificial Manus pela Meta, controladora do Facebook e Instagram. A decisão, considerada inesperada, foi anunciada pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC), órgão máximo de planejamento chinês, que proibiu a operação e exigiu a desistência de todas as partes envolvidas.
A NDRC não citou explicitamente a Meta Platforms, mas a medida afeta diretamente a transação. A Manus, empresa com origens chinesas mas sediada em Singapura, desenvolve um agente de IA de uso geral capaz de realizar tarefas complexas, como programação de aplicativos, pesquisa de mercado e elaboração de orçamentos trimestrais.
A decisão foi tomada pelo Mecanismo de Trabalho para Revisão de Segurança de Investimentos Estrangeiros, em conformidade com as leis chinesas. A proibição ocorreu após autoridades chinesas anunciarem, no início deste ano, que investigariam o acordo.
O anúncio foi feito a menos de um mês da visita do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, a Pequim, para se encontrar com o líder chinês Xi Jinping. Em resposta, um porta-voz da Casa Branca afirmou que a administração Trump continuará "defendendo o setor tecnológico inovador americano contra interferências estrangeiras indevidas".
A Meta anunciou, em dezembro de 2023, a aquisição da Manus, em um movimento raro de uma grande empresa de tecnologia dos EUA comprar uma startup de IA com fortes vínculos com a China. O acordo visava expandir as ofertas de IA nas plataformas da Meta, como Facebook e Instagram. A empresa garantiu que não haveria "interesses contínuos de propriedade chinesa na Manus" e que a startup encerraria suas operações na China.
No entanto, em janeiro, o Ministério do Comércio chinês declarou que investigaria se a aquisição estaria em conformidade com as leis locais. Na ocasião, o órgão afirmou que empresas envolvidas em investimentos externos, exportação de tecnologia, transferência de dados e aquisições transfronteiriças devem cumprir a legislação chinesa.
A maioria dos funcionários da Manus estava sediada em Singapura, embora a empresa tenha raízes em entidades registradas em Pequim há vários anos. Antes da transação, a Manus pertencia à Butterfly Effect Pte, com sede em Singapura. A empresa não respondeu a pedidos de comentário.
Em seu site, a Manus já anunciava que "agora faz parte da Meta", sugerindo que o acordo havia sido concluído. Em comunicado nesta segunda-feira, a Meta afirmou que a transação "atendeu plenamente à legislação aplicável" e que "antecipa uma resolução apropriada para a investigação".
Contexto geopolítico e implicações
Analistas veem a decisão como um sinal de que a China está intensificando o controle sobre a indústria de IA, em meio à crescente rivalidade tecnológica com os EUA.
"A China está mostrando ao mundo que está disposta a agir com firmeza quando se trata de talentos e capacidades em IA, que o país considera um ativo estratégico de segurança nacional", afirmou Lian Jye Su, analista-chefe de pesquisa tecnológica da empresa Trend Micro.
O episódio reforça a tendência de Pequim de restringir o acesso a tecnologias sensíveis, especialmente aquelas desenvolvidas por empresas estrangeiras com ligações na China. A medida também pode impactar futuras transações envolvendo startups de IA e empresas de tecnologia globais.