Críticas de RFK Jr. a programas de cuidados remunerados chocam famílias
Durante audiência no Congresso para defender o orçamento do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) dos EUA, o secretário Robert F. Kennedy Jr. atacou os serviços de cuidados domiciliares e comunitários, programa financiado pelo Medicaid que apoia mais de sete milhões de pessoas com deficiência nos Estados Unidos.
Kennedy focou suas críticas em um aspecto específico: a possibilidade de familiares receberem pagamento pelo cuidado de pessoas com deficiência por meio do Medicaid. Segundo ele, esses programas estariam "repletos de fraudes" e deveriam ser eliminados em favor do trabalho não remunerado, majoritariamente realizado por mulheres no ambiente doméstico — um modelo já predominante, mas insustentável.
Advogada explica por que a proposta de RFK Jr. é problemática
Calli Ross, mãe e ativista que lutou pela aprovação de leis que permitem pagamento a cuidadores familiares em Oregon, compartilha sua experiência para mostrar o que o político não compreende — ou prefere ignorar — sobre esses programas.
A maioria dos estados norte-americanos permite que pais de crianças com deficiência, familiares de adultos com deficiência e cuidadores de idosos recebam pagamento pelo atendimento domiciliar. Kennedy, no entanto, classificou esses cuidados como "apoios naturais" e trabalho não remunerado, reforçando a ideia de que essa função deve ser exercida por mulheres.
A realidade de uma família que depende desses cuidados
Tensy, filho de 11 anos de Calli Ross, nasceu com uma condição genética que o tornou mais suscetível a doenças. Aos quatro anos, sofreu uma parada cardíaca que durou 33 minutos sem oxigênio no cérebro. Embora tenha se recuperado, ficou com mobilidade limitada e necessita de suporte ventilatório 24 horas por dia, além de alimentação por sonda e cadeira de rodas.
Em 2024, uma nova crise levou à perda de seus movimentos faciais e capacidade de locomoção, embora ainda consiga se comunicar por meio de um dispositivo de rastreamento ocular. Graças ao apoio em casa e na comunidade, Tensy mantém uma vida plena.
Como funciona o programa que RFK Jr. quer eliminar
Em Oregon, uma avaliação estadual determinou que Tensy necessita de 744 horas mensais de cuidados de enfermagem e atendimento pessoal. Esses cuidados vão muito além do que se espera de um pai ou mãe comum, incluindo:
- Cuidados com traqueostomia;
- Reanimação manual durante convulsões;
- Suporte completo para todas as atividades diárias.
Desde 2023, Oregon permite que pais de crianças com necessidades especiais trabalhem até 20 horas por semana fornecendo esses cuidados, mediante pagamento. Programas semelhantes existem para adultos com deficiência e idosos, com financiamento compartilhado entre estados e governo federal.
O programa de Oregon é extremamente limitado: apenas 155 crianças podem participar por vez, com uma fila de espera de milhares. A lei que viabilizou esse benefício foi batizada em homenagem a Tensy: "Tensy’s Law".
"Essas horas poderiam ser preenchidas por alguém que fosse pago para trabalhar — se a mão de obra existisse. E, quando digo 'alguém', não me refiro apenas a mulheres, mas a qualquer pessoa disponível para essa função vital."
Por que a proposta de RFK Jr. é insustentável
Ross argumenta que a visão de Kennedy ignora a realidade do mercado de trabalho e a escassez de profissionais qualificados para cuidar de pessoas com deficiências graves. Além disso, desconsidera o impacto emocional e físico sobre as famílias que assumem sozinhas esses cuidados sem remuneração.
"A proposta de eliminar o pagamento a cuidadores familiares não só prejudicaria milhares de famílias, como também sobrecarregaria ainda mais um sistema de saúde já fragilizado", afirmou Ross.
O que está em jogo
Os programas de cuidados remunerados pelo Medicaid são essenciais para:
- Garantir a dignidade e qualidade de vida de pessoas com deficiência;
- Evitar internações desnecessárias em instituições;
- Oferecer suporte financeiro a famílias que dedicam suas vidas ao cuidado de entes queridos.
Para Calli Ross e outras famílias, a crítica de RFK Jr. representa um retrocesso perigoso. "Meu filho tem direito a uma vida plena, e isso só é possível graças a esses cuidados especializados. Eliminar o pagamento aos cuidadores não vai trazer mais justiça — vai apenas aumentar o sofrimento", concluiu.