A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora que supervisiona cerca de um quinto da economia norte-americana, transformou-se em um palco de incertezas e especulações políticas. O que antes era visto como uma instituição burocrática e previsível tornou-se alvo de um enredo digno de novela, com reviravoltas que afetam diretamente indústrias e pacientes.
Makary escapou da demissão — por enquanto
Na última semana, o nome do comissário da FDA, Marty Makary, foi vinculado a uma possível demissão após relatos de que o presidente Donald Trump havia autorizado sua saída. No entanto, múltiplas fontes indicaram que o médico e pesquisador da Johns Hopkins foi poupado no último momento.
Apesar da aparente trégua, a situação permanece fluida. Quando questionado sobre os boatos, Trump respondeu: "Tenho lido sobre isso, mas não sei de nada." A Casa Branca não se pronunciou oficialmente sobre o status de Makary, e um oficial da administração afirmou ao Politico que líderes do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) estariam por trás da pressão pela demissão, não a Casa Branca.
O que está em jogo na FDA
A agência é responsável por aprovar medicamentos, vacinas e dispositivos médicos, além de regular produtos como cigarros eletrônicos e pílulas abortivas. Sob o comando de Makary, a FDA enfrentou polêmicas em temas como:
- Regulamentação de pílulas abortivas;
- Aprovação de cigarros eletrônicos com sabores;
- Questões envolvendo vacinas;
- Tratamentos para doenças raras;
- Recusa inicial à avaliação da vacina contra gripe da Moderna, que foi revertida posteriormente.
Ao mesmo tempo, Makary implementou medidas para agilizar aprovações de medicamentos e reduzir a burocracia, políticas que devem ter desdobramentos nos próximos meses — independentemente de sua permanência no cargo.
Quem pode substituir Makary?
Caso o comissário deixe a agência, especialistas e analistas apostam em um perfil mais alinhado ao setor farmacêutico e menos disruptivo. Entre os nomes cotados internamente estão:
- Kyle Diamantas, vice-comissário de alimentos;
- Ex-comissários da própria FDA, como Stephen Hahn ou Brett Giroir, que atuou como interino em 2020.
Em relatório, o analista Will Humphrey, da Capstone, afirmou:
"Esperamos que a Casa Branca nomeie um comissário menos disruptivo e pró-indústria, consistente com outras medidas recentes da administração para moderar a agência."
Impacto no setor farmacêutico
Grandes laboratórios e pequenas biotecnologias anseiam por maior previsibilidade na FDA, especialmente em decisões cruciais que estão por vir:
- Aprovação de tratamentos experimentais para câncer, TDAH e doenças raras;
- Avaliação da vacina contra gripe da Moderna;
- Políticas sobre cigarros eletrônicos e medicamentos para doenças crônicas.
No entanto, a agência enfrenta um déficit de pessoal. Segundo dados da Raymond James, os centros de avaliação de biológicos e medicamentos da FDA tiveram queda de mais de 19% no quadro de funcionários desde o início do governo Trump, com vagas estratégicas — como diretor e vice-diretor — ainda não preenchidas. Makary anunciou recentemente a contratação de 3 mil novos cientistas, mas o processo deve levar tempo.
O que vem pela frente?
Makary deve testemunhar perante o Comitê de Apropriações do Senado na próxima quarta-feira (24), apresentando o orçamento da FDA para 2027. A audiência será um termômetro para entender os próximos passos da agência e o futuro do comissário.
Enquanto isso, o setor aguarda com expectativa: a demissão de Makary poderia sinalizar uma guinada mais agressiva na regulação, ou a nomeação de um sucessor mais alinhado aos interesses da indústria. De qualquer forma, a incerteza persiste — e o enredo da FDA continua em aberto.