Um bilhete que um ex-companheiro de cela de Jeffrey Epstein afirmou ter encontrado após a primeira tentativa suspeita de suicídio do financista foi tornado público nesta quarta-feira (11). O documento, que estava lacrado há anos em um cofre de tribunal, foi liberado por um juiz federal após pedido do The New York Times.
O juiz distrital dos EUA Kenneth Karas, de White Plains, em Nova York, ordenou a liberação do bilhete após o jornal solicitar, na semana passada, o desarquivamento de documentos em um caso envolvendo Nicholas Tartaglione, ex-policial condenado à prisão perpétua por matar quatro pessoas. O Ministério Público federal não se opôs ao pedido.
Contexto e descoberta do bilhete
O bilhete permaneceu desconhecido do público até Tartaglione mencioná-lo, no ano passado, durante um episódio do podcast da escritora Jessica Reed Kraus. Segundo ele, o documento foi encontrado dentro de um livro após Epstein ser encontrado no chão da cela, em 23 de julho de 2019, com uma tira de lençol enrolada no pescoço. Na época, autoridades concluíram que se tratava de uma tentativa de suicídio. Cerca de três semanas depois, Epstein foi encontrado morto em sua cela, também em circunstâncias consideradas suicídio pelas autoridades.
“Eles me investigaram por meses — não encontraram nada!!!”, diz trecho do bilhete, de difícil interpretação em alguns pontos. “É um privilégio poder escolher” o “momento de dizer adeus”, continua o texto. “O que você quer que eu faça — chorar?”, questiona. “SEM GRAÇA”, conclui o bilhete, com as palavras sublinhadas. “NÃO VALE A PENA!!”
Não está claro quem escreveu o bilhete que Tartaglione alegou ter encontrado. O documento não foi mencionado em relatórios governamentais detalhados sobre as circunstâncias da morte de Epstein, tampouco apareceu nos arquivos recentemente divulgados pelo Departamento de Justiça sobre o falecido financista.
Decisão judicial e critérios de liberação
Em sua decisão escrita, o juiz Karas ponderou os interesses de privacidade de terceiros, incluindo Epstein, antes de autorizar a liberação do bilhete. Ele afirmou que a jurisprudência existente sugere que os interesses de privacidade de uma pessoa falecida, como Epstein, “são consideravelmente reduzidos, e a divulgação de informações do falecido dificilmente causará um dano concreto”.
Detalhes da investigação e registros prisionais
Segundo registros da prisão, Epstein apresentava marcas de atrito e irritação na pele do pescoço após a suposta tentativa de 23 de julho. Agentes penitenciários relataram que ele respirava com dificuldade, mas estava consciente. Um deles afirmou, em relatório incluído nos arquivos do Departamento de Justiça, que Epstein disse acreditar que Tartaglione havia tentado matá-lo.
Após o incidente, autoridades colocaram Epstein sob vigilância de suicídio por 31 horas, antes de reclassificarem seu estado para observação psiquiátrica — condição em que ele se encontrava quando morreu. Segundo registros, Epstein negou ter tentado se machucar, dizendo a um psicólogo da prisão que o suicídio era contrário à sua fé judaica e que era um “covarde” que não gostava de dor.
Uma cronologia incluída nos arquivos indica que Tartaglione contou a seu advogado sobre o bilhete quatro dias após a suposta tentativa de 23 de julho. O documento foi posteriormente apresentado como prova no processo criminal de Tartaglione e mantido sob sigilo devido a uma disputa sobre sua representação legal.
Ambos os homens foram entrevistados por funcionários da prisão em 31 de julho de 2019, conforme registros prisionais.